A maioria dos turistas que caminha pela Piazza Navona, em Roma, foca as suas câmaras na grandiosidade da Fontana dei Quattro Fiumi (A Fonte dos Quatro Rios). Maravilham-se com o mármore esculpido, tiram uma fotografia e seguem o fluxo em direção ao Vaticano. No entanto, poucos percebem que estão no centro de uma das maiores disputas de ego, ciência e mensagens codificadas do século XVII.

Para quem sabe ler as pedras de Roma, aquela fonte não é apenas um monumento decorativo. É um mapa geopolítico e esotérico desenhado pelo mestre do Barroco, Gian Lorenzo Bernini, encomendado pelo Papa Inocêncio X.

Piazza Navona

O Simbolismo Oculto dos Quatro Rios

A fonte representa os quatro grandes rios dos continentes conhecidos na época: o Danúbio (Europa), o Nilo (África), o Ganges (Ásia) e o Rio da Prata (América). Mas Bernini, um homem de intelecto feroz e profundamente ligado às correntes intelectuais da época, transformou as estátuas gigantescas numa narrativa de segredos e rivalidades:

O Enigma do Nilo (O Rosto Tapado): A estátua que representa o Rio Nilo tem a cabeça coberta por um manto de mármore. Oficialmente, a história da arte diz que isto simbolizava o facto de as nascentes do Nilo serem desconhecidas na época. Contudo, o povo de Roma rapidamente decifrou o verdadeiro código de Bernini: o manto tapa os olhos da estátua para que esta não veja a fachada da Igreja de Sant’Agnese in Agone, situada logo em frente, projetada por Francesco Borromini, o arquiteto rival mortal de Bernini.

O Medo do Rio da Prata: A figura que representa a América ergue uma das mãos, como se estivesse a proteger-se de um colapso iminente. O código visual aqui é duplo: simboliza a riqueza recém-descoberta das Américas (com moedas esculpidas por perto), mas a sua postura de pavor aponta diretamente, mais uma vez, para a estrutura de Borromini, sugerindo de forma irónica que a igreja do rival poderia desabar a qualquer momento.

O Olhar Desviado do Ganges: A figura asiática segura um longo remo, mas o seu olhar está fixado no horizonte, ignorando ostensivamente o brasão papal esculpido na fonte, um sussurro silencioso sobre as dificuldades da Igreja Católica em converter o Oriente.
No topo de tudo, ergue-se um obelisco egípcio original, coroado com uma pomba de bronze (símbolo da família do Papa, os Pamphili). Bernini posicionou o obelisco de forma a que parecesse flutuar sobre o vazio da gruta da fonte, um milagre de engenharia que desafiava as leis da gravidade da física barroca e que pretendia demonstrar o poder divino que sustenta o papado.

 

Fontana dei Quattro Fiumi

Fontana dei Quattro Fiumi

Símbolo da Roma barroca, é uma das praças mais bonitas da cidade eterna.

Igreja Sant’Agnese in Agone

A igreja Sant’Agnese in Agone, no lado oeste da piazza Navona mesmo ao centro, é uma igreja barroca do século XVII mandada construir pelo papa Inocêncio X, que se tornou numa capela da família, anexa ao Palazzo Pamphili, tendo sido criada uma abertura do duomo de forma a que pudessem participar nos serviços religiosos sem sair do palácio. Vários artistas do barroco estiveram envolvidos na sua construção, entre eles Borromini e Bernini.

Interior igreja Sant’Agnese in Agone

É impressionante ver a cúpula central completamente pintada com motivos bíblicos, as estátuas de grande porte, entre elas o milagre de Santa Inês no altar principal. Esta igreja guarda também o crânio de Santa Inês.

Ao contrário do que se possa deduzir “in agone” não tinha a ver como agonia, mas sim local das competições (grego).