Revisitamos a primeira expedição científica à Serra da Estrela

by Nós por aí | 2018-10-23 | Estórias de viagem

As caminhadas e abertura de trilhos na Serra da Estrela começaram, muito provavelmente, com pastores, desde tempos muito remotos (mesmo muito remotos). Num passado mais próximo, e com caracter mais científico, a Sociedade de Geografia de Lisboa organizou aquela que viria a ser a I Expedição científica à Serra da Estrela, em 1881. Esta revelou-se não só num feito histórico da época como permanece até hoje como a única e maior concentração multidisciplinar de cientistas e meios no nosso país.

Quatro séculos antes, Portugal tinha começado a descobrir mundo além mar. Tornara-se um vasto império que ia de Ocidente a Oriente, no entanto, territórios do berço da nação permaneciam desconhecidos, representando a Estrela o maior reduto por descobrir.

A 1 de Agosto começava, na estação de Santa Apolónia, a expedição idealizada um ano antes, em sessão de 5 de Julho, por Luís Marrecas Ferreira, Luciano Cordeiro e o médico José de Sousa Martins (estes dois últimos fundadores da Sociedade), que pretendia promover uma estância sanatorial para a cura da tuberculose (que no século XIX, se tornou numa das doenças mais prevalecentes na Europa) em plena Serra da Estrela e a edificação de uma estação meteorológica. A Sociedade de Geografia de Lisboa convidaria também para esta aventura Hermenegildo Capelo, capitão-tenente da Armada Portuguesa e experiente explorador de terras africanas. Embora a Estrela, até então também chamada de Hermínio, não comportasse os perigos de África, representava um território desconhecido e selvagem, cheio de mitos e histórias, a sua experiência seria importante.

Alguns dos expedicionários - Gentil Martins, Jules Daveau, Hermenegildo Capelo, Emídio Navarro, Júlio Henriques e Martins Sarmento

Alguns dos expedicionários – Gentil Martins, Jules Daveau, Hermenegildo Capelo, Emídio Navarro, Júlio Henriques e Martins Sarmento

As grandes viagens de exploração marítima empreendidas desde o século XV e subsequentes conquistas de novos territórios, sobretudo em África, levaram à fundação, a par de outros países europeus, da Sociedade de Geografia de Lisboa cujo objectivo principal era a exploração e pesquisa desses novos territórios ultramarinos, sendo este interesse crescente com o receio de perda destas colónias (principalmente para a Grã-Bretanha).

De Lisboa partiam 42 membros, aos quais se juntaram outros tantos vindos de Coimbra, Porto, Mealhada, Guimarães e até de algumas localidades serranas. Ao todo eram cerca de 100 pessoas, entre cientistas, especialistas, médicos e pessoal de apoio, que durante duas semanas iriam percorrer a Estrela, desenhar mapas, observar espécies, recolher amostras, desmistificar histórias e conhecer as gentes serranas.

O grupo expedicionário propôs-se divulgar o conhecimento adquirido, publicando relatórios e documentos que ficariam depois disponíveis em arquivos, bibliotecas, museus e universidades. Nestes relatórios deveriam constar as dificuldades encontradas, a recolha e classificação das amostras e espécimens assim como a descrição das espécies e tradições. Cartografar, sondar, observar e curar, desenhar e fotografar, prestar serviço público, consultando, examinando, operando e dando medicamentos à população local (especialmente aos doentes), apontar mudanças e dar soluções, certificar e divulgar o conhecimento.

A campanha na serra começou a 4 de Agosto. O acampamento base situava-se na área do Cume, a curta distância da fonte dos Perus a 1850 metros de altitude. Durante a campanha os pastores (senhores da serra) foram guias incansáveis, desbravando caminhos, transmitindo saberes e ensinando a sobreviver nas árduas condições da montanha.

Torre, em 1881

Torre, em 1881

Num regime tipicamente militar, em que havia alvorada e silêncio a toque de corneta, as várias disciplinas do conhecimento trabalharam durante 15 dias.

A maior parte dos dados e acervos recolhidos pelas diferentes secções de investigadores (não chegando a ser publicados metade dos relatórios previstos), estão atualmente preservados em arquivos públicos e centros de investigação de algumas universidades.

Os expedicionários da Sociedade de Geografia de Lisboa deveriam ter regressado à Serra da Estrela em 1883, pois a expedição fora planeada como plurianual. O mesmo não veio a acontecer, no entanto esta expedição abriu portas a outras explorações programadas, que embora não chegassem de perto à dimensão da primeira, revelaram-se de grande importância. É disso exemplo a grande descoberta feita em 1883 pelo geólogo Vasconcelos Pereira Cabral que publicou a primeira prova de uma glaciação na Península Ibérica depois de ter encontrado sulcos de glaciares, rochas aborregadas, blocos erráticos e moreias.

Muito ficou por descobrir, mas esta expedição talvez tenha despertado o início das investigações e conhecimento, mas também das caminhadas nesta que é a maior serra de Portugal continental.

 


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